- Ah, por isso o resultado não bate, Marcelo... Você se embananou todo nessa parte da equação. - Disse ela achando graça, enquanto eu me sentia mais e mais perdido. Não pela dificuldade da maldita equação. Mas perdido naquele jeito dela. Enquanto ela puxava o meu caderno e começava a apagar a parte que eu havia errado, continuei olhando-a, como que hipnotizado.
Caraca, como pode? A gente cresceu praticamente junto, morando no mesmo prédio, participando das mesmas brincadeiras, aprontando uma atrás da outra, atazanando a vida do seu Humberto, o zelador. Indo pra escola junto, às vezes almoçando um na casa do outro... Estudando na mesma classe! Desde que eu me entendia por gente, a Carina tava lá. Eu tinha por mim que, talvez até a mesma mamadeira a gente dividiu! Então por quê? Por quê, meu Deus?
- Marcelo! - Chamou insistente.
- Hã? - Perguntei, como se tivesse levado uma descarga elétrica. Será que ela havia percebido que eu tava encarando? Que, por mais que eu tentasse, não conseguia deixar de tirar os olhos dela?
- Tá dormindo, ou? - Perguntou segurando o riso.
- Ah... eu... - (Droga! Não gagueja, mané!) - Desculpa, Carina... Acho que eu desliguei...
- Total! - Concordou ela, rindo. Aquele riso limpo, branco, iluminado... - Mas também ninguém merece, né? Uma tarde linda lá fora e a gente aqui, moscando com a cara enfiada num livro de matemática! Tanta coisa melhor pra fazer...
"Com certeza... Agora mesmo estou pensando numa outra coisa que seria ótima..."
Putz! Eu não acredito que tava pensando naquilo! Sacudi na hora a cabeça, pra espantar aquele e qualquer outro pensamento idiota que pudesse me ocorrer. Como é que eu podia ser tão imbecil? Não conseguia nem conversar direito com ela de uns tempos pra cá, e ficava pensando em levá-la pra cama? Só podia ser coisa da minha cabeça anormalmente grande e totalmente vazia!
- Empatei a tua vida, né, Carina? - Perguntei dando um suspiro.
- Que nada, Celo... - Nossa! Ela sempre me chamou de Celo e eu sempre achei aquela abreviação super normal. Mas de uns tempos pra cá, quando ela me chamava daquele jeito, meu coração parecia despencar até o tornozelo pra logo em seguida, subir de volta ao peito como um foguete supersônico! Fiquei vendo os seus lábios se movendo, falando alguma coisa que, não sei porque, não conseguia entender. Como era linda! Aquele cabelo cacheado e muito ruivo, os olhos amendoados e a pele clara coberta por aquele vestido florido... Ela parecia uma combinação perfeita de música e poesia. Seus olhos se desviaram dos meus por um momento e eu me senti perdido, solitário, tentando sufocar um grito. Era como se nada mais tivesse importância na vida, a não ser aqueles olhos que eu comecei a amar a tão pouco tempo. Carina continuava falando, articulando a boca, rodando o lápis entre os dedos. Eu parecia um surdo. Um surdo completamente apaixonado e fascinado! Quando ela bateu de leve a sua mão na minha perna, foi como se eu tivesse sido acordado com o estrondo de uma explosão.
- Você ouviu, Celo? - Perguntou ela, me olhando séria.
Respirei fundo. Mesmo não querendo, desviei os meus olhos dos seus e me fixei na página do meu caderno. Vi aquela maldita equação incompleta e não pude deixar de me sentir mal. E se ela soubesse a verdade? E se eu contasse pra ela que, era inútil ficar me explicando aquela equação, porque eu simplesmente, era capaz de resolvê-la até de olhos fechados? Que, na verdade, eu tinha inventado que tava mal em matemática, só para ela ficar ali, comigo? Qual seria a reação dela? Ia me xingar, me mandar pra puta que pariu, ou simplesmente ia virar a cara e nunca mais falar comigo?
Pra falar a verdade, acho que eu nunca ia ficar sabendo... Porque eu não ia ter coragem de contar. Eu a queria ali, do meu lado. Não só uma tarde, mas durante todas as tardes que a gente pudesse viver junto. Eu ia ter que continuar mentindo e teria também que torcer pra que ela nunca desconfiasse de nada. Seria doído demais não ser correspondido, descobrir que ela não sentia nada por mim, além de amizade. Mas ia doer mais ainda, se eu perdesse a amizade dela. Tentando sufocar uma vontade imensa de chorar e, ainda olhando fixamente pra folha de caderno, falei sem encará-la:
- Acho que por hoje chega, Carina... Essa equação é difícil demais pra mim!
Carina pareceu surpresa. Ela pegou o lápis que segurava e o guardou no seu estojo, fechou seu caderno e o livro de matemática e se levantou.
- Então, tá... - Disse, tentando não se mostrar decepcionada. - Quando você preferir ficar mais no mundo real do que no mundo da lua, a gente continua...
E, sem dizer tchau, virou as costas e foi embora. Sozinho, ali na sala, eu tombei a cabeça sobre o caderno e deixei as lágrimas lavarem aquele monte de números que eu conhecia tão bem.
Definitivamente, dizer "Eu te amo", era mais assustador que a mais difícil das equações.
Caraca, como pode? A gente cresceu praticamente junto, morando no mesmo prédio, participando das mesmas brincadeiras, aprontando uma atrás da outra, atazanando a vida do seu Humberto, o zelador. Indo pra escola junto, às vezes almoçando um na casa do outro... Estudando na mesma classe! Desde que eu me entendia por gente, a Carina tava lá. Eu tinha por mim que, talvez até a mesma mamadeira a gente dividiu! Então por quê? Por quê, meu Deus?
- Marcelo! - Chamou insistente.
- Hã? - Perguntei, como se tivesse levado uma descarga elétrica. Será que ela havia percebido que eu tava encarando? Que, por mais que eu tentasse, não conseguia deixar de tirar os olhos dela?
- Tá dormindo, ou? - Perguntou segurando o riso.
- Ah... eu... - (Droga! Não gagueja, mané!) - Desculpa, Carina... Acho que eu desliguei...
- Total! - Concordou ela, rindo. Aquele riso limpo, branco, iluminado... - Mas também ninguém merece, né? Uma tarde linda lá fora e a gente aqui, moscando com a cara enfiada num livro de matemática! Tanta coisa melhor pra fazer...
"Com certeza... Agora mesmo estou pensando numa outra coisa que seria ótima..."
Putz! Eu não acredito que tava pensando naquilo! Sacudi na hora a cabeça, pra espantar aquele e qualquer outro pensamento idiota que pudesse me ocorrer. Como é que eu podia ser tão imbecil? Não conseguia nem conversar direito com ela de uns tempos pra cá, e ficava pensando em levá-la pra cama? Só podia ser coisa da minha cabeça anormalmente grande e totalmente vazia!
- Empatei a tua vida, né, Carina? - Perguntei dando um suspiro.
- Que nada, Celo... - Nossa! Ela sempre me chamou de Celo e eu sempre achei aquela abreviação super normal. Mas de uns tempos pra cá, quando ela me chamava daquele jeito, meu coração parecia despencar até o tornozelo pra logo em seguida, subir de volta ao peito como um foguete supersônico! Fiquei vendo os seus lábios se movendo, falando alguma coisa que, não sei porque, não conseguia entender. Como era linda! Aquele cabelo cacheado e muito ruivo, os olhos amendoados e a pele clara coberta por aquele vestido florido... Ela parecia uma combinação perfeita de música e poesia. Seus olhos se desviaram dos meus por um momento e eu me senti perdido, solitário, tentando sufocar um grito. Era como se nada mais tivesse importância na vida, a não ser aqueles olhos que eu comecei a amar a tão pouco tempo. Carina continuava falando, articulando a boca, rodando o lápis entre os dedos. Eu parecia um surdo. Um surdo completamente apaixonado e fascinado! Quando ela bateu de leve a sua mão na minha perna, foi como se eu tivesse sido acordado com o estrondo de uma explosão.
- Você ouviu, Celo? - Perguntou ela, me olhando séria.
Respirei fundo. Mesmo não querendo, desviei os meus olhos dos seus e me fixei na página do meu caderno. Vi aquela maldita equação incompleta e não pude deixar de me sentir mal. E se ela soubesse a verdade? E se eu contasse pra ela que, era inútil ficar me explicando aquela equação, porque eu simplesmente, era capaz de resolvê-la até de olhos fechados? Que, na verdade, eu tinha inventado que tava mal em matemática, só para ela ficar ali, comigo? Qual seria a reação dela? Ia me xingar, me mandar pra puta que pariu, ou simplesmente ia virar a cara e nunca mais falar comigo?
Pra falar a verdade, acho que eu nunca ia ficar sabendo... Porque eu não ia ter coragem de contar. Eu a queria ali, do meu lado. Não só uma tarde, mas durante todas as tardes que a gente pudesse viver junto. Eu ia ter que continuar mentindo e teria também que torcer pra que ela nunca desconfiasse de nada. Seria doído demais não ser correspondido, descobrir que ela não sentia nada por mim, além de amizade. Mas ia doer mais ainda, se eu perdesse a amizade dela. Tentando sufocar uma vontade imensa de chorar e, ainda olhando fixamente pra folha de caderno, falei sem encará-la:
- Acho que por hoje chega, Carina... Essa equação é difícil demais pra mim!
Carina pareceu surpresa. Ela pegou o lápis que segurava e o guardou no seu estojo, fechou seu caderno e o livro de matemática e se levantou.
- Então, tá... - Disse, tentando não se mostrar decepcionada. - Quando você preferir ficar mais no mundo real do que no mundo da lua, a gente continua...
E, sem dizer tchau, virou as costas e foi embora. Sozinho, ali na sala, eu tombei a cabeça sobre o caderno e deixei as lágrimas lavarem aquele monte de números que eu conhecia tão bem.
Definitivamente, dizer "Eu te amo", era mais assustador que a mais difícil das equações.
(Continua)
Lucas adorei!
ResponderEliminarTexto contagiante,dá pra sentir o cheiro da sala de aula,do lápis que a Carina segura e guarda no estojo,sentir a angústia do Marcelo,gostei mesmo!
Boa sorte com este blog!
Serei sua seguidora.
Grande Beijo.